PORTO AGRÁRIO (JUVENÍLIA) – Todos os dias, dezenas de estudantes da comunidade rural de Porto Agrário, município de Juvenília, no extremo Norte de Minas, empreendem verdadeira aventura para concluir o segundo grau. A bordo de pequenas e desconfortáveis chalanas, eles descem o Rio São Francisco em direção à Bahia, para estudarem na Escola Estadual Coronel João Duque, no município de Carinhanha. A viagem descendo o rio dura cerca de uma hora. Na volta, navegando contra a correnteza, o tempo é maior, cerca de uma hora e meia a uma hora e quarenta minutos, de acordo com os estudantes.
Para chegarem a tempo, quem estuda na parte da manhã precisa acordar cedo, por volta das cinco horas. Já os que estudam à tarde muitas vezes não têm tempo de almoçar e levam a comida em marmitas para se alimentar durante o trajeto. “É muito sofrimento e muito cansativo”, diz a estudante Keila Ferreira Souza, 21 anos, aluna do segundo ano do segundo grau. Ela conta que por causa das dificuldades chegou a ficar quatro anos sem estudar.
Os estudantes de Porto Agrário não escondem sua indignação com as condições a que precisam se submeter em busca de um futuro melhor, através da conclusão dos estudos. A revolta é porque eles sabem que em 2003, o ex-prefeito de Juvenília, Professor Joaquim Gonçalves da Silva, assinou com a Secretaria de Estado da Educação um convênio que destinou cerca de R$ 180 mil para a construção da Escola Núcleo de Porto Agrário. O estabelecimento, com capacidade para atender 300 alunos, também contaria com uma quadra de esportes, para a qual foram destinados outros R$ 78,2 mil.
No local onde deveria existir a escola, o que emerge do mato é o esqueleto de uma construção inacabada, carcomida pelo vandalismo e pela ferrugem. No local onde deveria existir a quadra de esportes, não há nada, a não ser animais pastando. O ex-prefeito é acusado de ter desviado a maior parte da verba, em conluio com empreiteiras, entre as quais a Construtora Proença Ltda, com sede em Montes Claros. Na Comarca de Montalvânia, estão em andamento duas Ações Civis Públicas, propostas em 28 de março e em 17 de abril contra o Professor Joaquim Gonçalves da Silva. Neles o Ministério Público pede a condenação do ex-prefeito à devolução de cerca de R$ 350 mil aos cofres públicos de Juvenília.
O atual prefeito de Juvenília, Antônio Marinho de Matos, o “Toninho Marinho”, informou que enfrenta dificuldades para conseguir a liberação de novas verbas para terminar a Escola Núcleo de Porto Agrário, porque seu antecessor prestou contas à Secretaria de Estado da Educação como se a obra tivesse sido concluída.
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Fonte: Jornal Folha do Norte